O Fim do Facebook seria bom para a Internet

Com os recentes escândalos envolvendo o Facebook e entidades políticas nos EUA, Inglaterra e também aqui no Brasil, a ferramenta se vê perdendo bilhões de dolares e o mais importante, bilhões de usuários. O Facebook tem mais de dez anos e vem se tornando uma daquelas ferramentas que faz parte da vida das pessoas, mas será que isso é bom? Eu sinceramente acredito que não, apesar de trabalhar com social media pra meus clientes por anos.

O Facebook é uma ferramenta que traz um sistema de recompensa de dopamina para as pessoas, elas querem que seus posts sejam curtidos, elas querem que seus posts gerem reações, por mais que estas reações não signifiquem praticamente nada, afinal que vale uma curtida quando a pessoa muitas vezes nem lê a matéria que foi compartilhada, curtindo apenas o título da mesma. De qualquer forma, é justamente esta adição nestas pequenas e continuas doses de dopamina, de satisfação em estar sendo notado e gerando reações, que vivem muitas pessoas e que se baseia grande parte da estrutura do Facebook. As pessoas investem horas do seus dias em produzir conteúdo para esta plataforma e acabam se associando com pessoas que pensam de forma igual, o que a longo prazo pode impedir a reflexão real sobre a visão oposta a sua enquanto ao mesmo tempo uma forte impressão apesar de falsa, de que sua posição e pensamento é a maioria ou a correta. Memes rolam por toda parte, sempre com frases curtas e ideias mais curtas ainda, causando uma divisão entre pessoas, onde o debate e diálogo sobre ideias está cada vez menor, e com a popularização da plataforma, uma enxurrada de pessoas que não estavam nem acostumadas e nem tinham a tradição de explorar o diferente, muito menos ter contato com pessoas de pensamentos opostos, ingressaram na rede social.
O resultado é o que vemos: pessoas que muitas vezes nitidamente estão em conflitos com suas próprias máximas, defendendo posicionamentos que já são determinados como imorais, se posicionando como as vozes da razão, inclusive ofendendo e ameaçando outras pessoas.

Acontece que o tempo investido nestes diálogos que muitas vezes acabam sendo monólogos, pois muitas vezes nenhuma parte realmente está interessada ou sequer levando em consideração o que a outra parte expõe, consome horas das vidas das pessoas. Onde antes a partir de compartilhamento de informações se gerava o debate, por causa do volume de informações compartilhadas hoje, se torna impossível acompanhar e entender as informações que são bombardeadas diariamente.

Antes do Facebook se tornar a ferramenta que é hoje em dia, a Internet era diferente, as pessoas passavam muito mais tempo acessando sites e absorvendo informações de verdade, além das ferramentas de busca que indicavam sites de conteúdos, existiam os sites de compartilhamento e votação de conteúdo como o Digg, o  Delicious, o StumbleUpon, entre muito outros que permitiam acesso a informações consideradas importantes diariamente graças a curadoria humana que votava a favor de cada matéria. Com a popularização da plataforma do Facebook, sites individuais experimentaram uma queda em seus acessos, principalmente websites de conteúdo. Aos poucos todos websites migraram para ter uma instância dentro da plataforma do Facebook em busca de maior visibilidade. Compartilhando seus conteúdos em páginas em busca de visibilidade.

O fenômeno das redes sociais que iniciou como uma forma alternativa e humana de compartilhamento de conteúdo com curadoria humana, se tornou uma plataforma de compartilhamento de fragmentos de ideias sem haver sequer a responsabilidade de estar compartilhando informações com qualquer veracidade ou qualidade. Basicamente se a pessoa compartilhando está conectada o suficiente com pessoas que pensam igual, tem maiores chances de obter maior número de reações, o que por sua vez gera maior visibilidade.

Agora com a popularização do “Fake News” graças em parte a campanha presidencial americana, onde ficou comprovado a intervenção de forças estrangeiras em criar divisão, literalmente fabricando informações, e disseminando estas informações nocivas através de perfis falsos, se torna bem evidente o problema social tecnológico que surgiu.
Aqui no Brasil existem grupos  que se valeram de técnicas similares, utilizando robôs para publicar conteúdo, usando ferramentas de marketing, para disseminar ideias radicais, fazendo parecer que uma opinião tinha bem mais adeptos do que realmente tinha. Os resultados foram absurdos, vimos exposições de arte genuínas com peças de décadas atrás serem fechadas, em função unicamente do alvoroço digital causado por estas iniciativas que buscam deturpar o dialogo honesto.

O problema é que o Facebook recebe a grande maioria dos investimentos em publicidade da Internet hoje. Não existe outra ferramenta capaz de substituir estes resultados que são gerados em termos de interação com clientes em potencial. Facebook está tão presente na vida das pessoas, principalmente através de sua presença em aparelhos mobile, que se torna difícil imaginar o que aconteceria com a Internet se a ferramenta encerrasse atividades de um dia para outro.

Onde antes o acesso a internet era de certa forma elitizado, e portanto além de ser um grupo menor de pessoas era também um grupo mais interessado em liberdade de expressão e compartilhamento de informações, hoje com a possibilidade de estar online no Facebook com um celular barato permite que qualquer pessoa, sem qualquer visão de mundo, sem qualquer cultura ou conhecimento, possa estar também se inserindo e participando de debates. Isso é positivo, a inclusão digital é fundamental, mas existe um aprendizado que pessoas deixaram de lado e começam e se inserir em debates que de fato muitas desconhecem com profundidade o assunto e acabar no final das contas gerando apenas interferência e barulho. Um exemplo clássico deste tipo de interferência são por exemplo os evangélicos descriminando pessoas homo afetivas. Ou seja, pessoas que em muitos casos nunca pensaram, estudaram, refletiram sobre o assunto, de repente se sentem no direito de opinar sobre o assunto.

Outro problema que surge é a incapacidade de compreender que nem tudo está passível de opinião. Existem coisas que são fatos. Recentemente uma grande quantidade de pessoas online começaram a divulgar que acreditavam que o planeta seria um disco, a hipótese da terra plana, apesar da incrível quantidade de informações que existem sobre o formato e situação do nosso planeta dentro do universo. A desigualdade de conhecimento, ao invés de trazer informações aos que estão atrasados, através do Facebook infelizmente fez com que pessoas sem o conhecimento estabelecido, se achassem no direito de questionar estes conhecimentos, baseando-se unicamente em sua fala de compreensão sobre eles.

Agora a corrida digital é justamente para regular esta dissonância de informações em comparação a opiniões incorretas.
Por enquanto, não alimentem os Trolls. Certamente estes problemas irão se tornar menos comuns a medida que soluções surgem com maior credibilidade. Sites como o Google já tomaram esta iniciativa faz algum tempo, dando prioridade para indexação de sites que são factuais e conteúdo que é dependente de fatos científicos e menos para sites que são só opiniões.

Falhar em resolver estes problemas pode resultar em censura digital que então seria o verdadeiro fim da Internet.

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Ricardo Cury

Desenvolvedor de websites desde 1998. Diretor de negócios da Delta Design, autor de conteúdo no RGSTur, Desenvolvedor do Revista Internet, Webmaster no O Café, desenvolvedor do Turismo de Compras, videomaker, produtor e criativo em diversos projetos web. I LOVE INTERNET